A sorte bafeja os audazes, tenho dito, pronto. Aconteceu, não sei se por me julgarem um stressado em último grau se foi a tal sorte, que encontrei um pequeno naco de vitela no talho do meu vizinho. Por artes ou magia de um qualquer deus ou por qualquer outra razão, caiu-me à porta uma franganita criada por (também, balha-me deus balha) uma vizinha com quintal lá para os lados de Amarante.
Com tantos luxos comestíveis e ainda por cima em tempo de crise e, presumo eu, final de setresse, martelei a minha pobre cabeça sobre o que haveria de fazer a tais coisas.
Deu o que vou descrever e partilhar com os meus queridos amigos e as minha queridas amigas e todos e todas os e as visitantes que se deixem corromper por boa comidinha não de gourmeteria mas simples e saborosa.
Então cá vai para descontrair e deixar o setresse para trás e elevar a alma.
Cozi a franganita num litro de água à qual adicionei um pouco de sal, cebola, umas tantas cabeças de alhos, cenoura e um bom molho de salsa, mas de maneira a que não ficasse totalmente cozida. Isto é, a ficar um pouco durinha ainda. Lembrem-se que estou a falar de uma franganita criada no quintal
Retirei a franganita, coei o caldo, voltei a metê-lo ao lume e quando começou a ferver enfiei-lhe o naco da vitela, que deixei cozer por cerca de 30 minutos.
Enquanto isso descasquei batatas, que parti grossas no sentido do comprimento. Para uma boa assadura no forno, aprendi que devem ser bocados grossos. E é verdade. Depois de bem lavadas para largar o amido, sequei-as, temperei-as com sal e pimenta, misturei bem.
Então temos a franganita cozida, o naco de vitela idem, as batatas cortadas temperadas e o caldo.
Aconcheguei a franganita toda aberta numa travessa pirex de ir ao forno (tirei-lhe as asas que com os miúdos vão dar canja, olarilas, coisa boa para setressados quando estiverem a ver um jogo de futebol). Barrei-a com manteiga derretida e zás, forno com ela, a 200 graus.
Numa outra travessa de ir ao forno, meti o naco de vitela numa cama de cebola partida em bocados grossos e umas colheradas do caldo a cobrir só a cebola. Aconcheguei-a com as batatas e barrei tudo com a tal manteiga derretida. Borrifei com uns goles de vinho branco, acrescentei pimenta moída ao naco e forno com a travessa.
Convém dar um pouco de ar aos assados. Por isso ao fim de 30 minutos retiram-se as travessas do forno, voltam-se as carnes e as batatas e rega-se com o molho que vão deixando. Volta lá para dentro.
A arte de bem cozinhar não vai nos tempos mas nos paladares. Por isso vamos roubando aos produtos uns poucachinhos até estarem como gostamos.
Agora vamos para o arroz.
Lembram-se do caldo que sobrou ? Pois então voltou para o lume e juntei umas rodelas de chouriço e uns cubos de toucinho fumado. Há quem lhe chame Bacon, os gringos chamam-lhe presunto. Cada um lhe chame o que quiser e eu meti-lhe mais umas folhas de salsa do meu quintal. Quando começou a ferver enfiei-lhe o arroz que era do nosso, o famoso Carolino.
Quase no ponto, retirei do lume e passei-o para uma caçarola de barro e forno com ele, na parte de baixo do dito forno.
Agora contam os paladares de cada um. Para a franganita, para o naco de vitela e para o arroz.
Nos entretantos de todas as operações, há tempo para uma fazer uma salada (fiz de alface e tomate e uns cubitos de queijo) temperada com pouco sal, azeite e vinagre.
E ainda para fazer uns grelos salteados em azeite e alho com cheirinho de pimenta e cominhos.

Os produtos finais no meu prato.
Deixo à vossa imaginação, amigos e amigas, o paladar destas coisitas.
Como todos sabeis, não dou ponto sem nó. E o nó foi uma café Delta, melhor dois cafezes e a excepcional aguardente do Monge Morto que me é ofertada pelo querido amigo Joaquim Peixoto, esse mesmo, um dos compadres de Penafiel.
Prontos queridíssimos e queridíssimas, aqui está como descontrair após uma semana setressante.
Para melhor parecer, utilizei uma certa linguagem algarvia (devo-a ao meu querido amigo e ex-camarada de armas Zé Manel Algarbeu que de vez em quando me envia uma fotos de girls camones fotografadas nas belas praias do sul de Portugal).