sábado, 1 de dezembro de 2012

54 - Memórias de Outros Tempos. A Estadia no H.M.241

Faz 43 anos que abandonei o Hospital Militar depois de uma estadia de cerca de 30 dias com guia de marcha para a minha zona de residência, Catió.
Tudo começou meses antes, talvez em Junho, quando os dentes começaram a chatear. Consegui a consulta externa e em finais de Agosto arranjaram-me lugar numa DO e lá fui até à cidade do Faz de Conta, que era Bissau.

Dias após consegui a vaga para me serem arrancados dois dentes. Que me deram cabo do juízo antes, durante e após as extrações. Apanhei o jeitinho de trincar os dentes.
Como andava a sentir-me mal do estômago e aproveitando a estadia, pedi uma consulta médica. Não demorou muito tempo a ser atendido pelo Dr. Maximino Cunha ( agradeço ao Albino Silva ter-me informado do nome do médico ) que era do meu tempo, incorporado no Batalhão de Chaves. Não sei qual era, mas sei que era também o dos meus amigos Cancela e Mano Velho Carvalho. Só há pouco mais de quatro anos conheci estes bronqueiros.
Disse-me o médico para esquecer o estômago e irmos ver os pulmões. Mas isso só com internamento. Imaginem como fiquei.

O internamento demorou muito tempo e então matava-o de qualquer maneira. De manhã ía-me apresentar aos Adidos, passava no Hospital para ver se havia vagas; as refeições e as dormidas eram no Quartel General, numa grande caserna, com beliches duplos, suja que nem pocilga.

As tardes eram entre a Piscina do Quartel General ou os cafés da Cidade. Ao domingo eram os jogos de futebol. Para experimentar também fiz um serviço de patrulhamento nocturno com dois soldados, dentro de um hunimog salta-pocinhas, entre os Adidos e o Aeroporto. Quer dizer, a certa altura o condutor estacionou a viatura num local qualquer e ferramos a "galhada" até às 5 da manhã, hora de recolher. Ele é que sabia como era.

Finalmente consegui uma vaga na primeira enfermaria do lado esquerdo, com varanda e tudo.
A próxima consulta foi ainda com o Doutor Maximino - que acabou por ser o meu médico até ao fim - para além dos RX, receitou-me comprimidos e uma injecção diária que era de ir aos arames. O líquido, mais ou menos da cor de jeropiga, quando entrava pareciam vidros. Ainda por cima o bruto do cabo enfermeiro, lá porque era pegador de touros, não fazia carinhos nenhuns. Fiquei com tanta raiva ao homem que só não veio da varanda abaixo porque não tinha cabedal para ele. Consegui ao fim de poucos dias que as injecções fossem substituídas por comprimidos. Passei a tomar 16 diários, aumentados às quintas-feiras com o quinino e as vitaminas.

Ora um internamento requer pijama e chinelos. Como não os tinha, alguém me arranjou, originários provavelmente do caixote do lixo mas lavados, um casaco só com um botão, quási branco. Umas calças quási azul bebé, sem elástico na cinta, cuja braguilha fechava em parte com um alfinete dama, ou bebé, como cá em cima lhe chamamos. Os chinelos, um de cada cor, eram daqueles que tinham uma borrachinha mais ou menos a meio e o dedão ía para um lado e o resto dos dedos para o outro. Num dos chinelos, de tão coçado, a dita borrachinha só segurava de vez enquando, mas usava sempre um clipe de prender papeis.
Li há dias que esses chinelos foram inventados por um brasileiro e se chamam havanezas ou haitianas ou coisa parecida. Para o caso não interessa nada.

Tinha conseguido no dormitório do Q.G. umas feridas na cara que demoraram muito tempo a cicatrizar. Portanto, não fazia a barba o que tornava o meu conjunto visual por demais ridículo, do qual a malta "tainava" forte e feio. Coisa que não me preocupava, diga-se de passagem. Já cá cantavam quási 18 meses.
Na enfermaria foram meus companheiros o Sargento Carvalho das Daimler, também de Catió, mas por pouco tempo; e dois rapazes já em adiantado tempo de comissão. Um tinha sido operado de urgência, não me lembro agora se por doença se por ferimentos. O outro, chegamos à conclusão que já nos conhecíamos telefonicamente por motivos profissionais. Ele trabalhava no Turismo da Nazaré e eu na gráfica que lhes fornecia o material de propaganda. Era fadista amador, mais tarde tornou-se profissional e cheguei a vê-lo actuar na RTP. Foi ele que em Abril do ano seguinte me levou e às malas ao barco, no jipe emprestado por um major, pai da sua namorada.

Chegou à enfermaria um novo inquilino, velho conhecido de Catió, o Fidalgo de Montalegre, da CCS do BART.2865. Para arrancar dentes. Era um contador de estórias muito interessante. Recordo uma a da tentativa de abatimento de um avião planador pelos guardas espanhóis, quando atravessou a fronteira pilotando o dito cujo.
Certo dia fomos visitados pelo Brigadeiro creio que se chamava Nascimento e se também não estou em erro era o Cmdt. Militar da Guiné. Depois de uma conversa a saber do estado de saúde da rapaziada, olhou para o Fidalgo que de boca aberta dormia e disse: Este sim, está muito mal. Na realidade o aspecto do Fidalgo era terrível. De manhã tinha tirado mais alguns dentes, estava com a boca desdentada e meio ensanguentada. Dormia, talvez, ainda por causa da anestesia. Mereceu o comentário.
 
A enfermaria estava localizada num ponto estratégico. Permitia-nos ver o heliporto e a chegada de evacuados. Certo dia lá chegou mais um heli e descarregou um barbudo. Dissemos para nós mais um fuza que se f..d...
Mais tarde viemos a saber que era um cubano mercenário, o Capitão Peralta.
O Hospital ficou cheio de comandos e o homem ficou num quarto com sentinelas à porta. Esta foto correu mundo e já foi identificada. Não me lembro agora se pelo Dinis Dias ou pelo Pinto, que se reconheceu no meio dos dois outros maqueiros.

Durante a estadia, fiz algumas visitas (rondas) nocturnas a enfermarias acompanhado pelo camarada Quintino da CART.2410, que entretanto tinha passado aos auxiliares e começou a peluda mais cedo nos serviços do Hospital. Vi coisas horríveis. Nos africanos a causa maior das doenças eram a blenorreia e impressionava aqueles tamanhões de pénis a desfazerem-se. 
Não havia entretenimentos, mas aos domingos deixavam-nos sair. Também a um domingo o Duo Ouro Negro, apenas com as suas violas, foram-nos dar um belo espectáculo.

Voltando às minhas doenças, os pulmões estavam um pouco estragados por uma bronquite crónica e não só por causa do clima. O Dr. Maximiano recomendou-me deixar de fumar, ou no pior dos casos fumar charuto. Não havia charutos mas as célebres Timparillos, que passei a fumar. Depois novamente no mato não me estava a ver a andar com a cigarrilha na boca à Fidel, embora as comprasse no Bar de Catió e abusei delas uns bons tempos ainda.
Estava por resolver o caso do meu estômago, que depois de tomar a horrível papa, foi-me diagnosticada uma gastrite aguda.

Quero com isto dizer que passei a dieta. Peixe era a comida e normalmente o Espada. Coisa horrorosa, que trocava com os sulistas amantes de peixe por uma comida decente, embora seja um aforismo dizer comida decente. Mas pouco comia, a não ser o pequeno almoço e o lanche, por causa do pão. No intervalo eram as bolachas que tinha na mesinha de cabeceira. Claro que havia os dias de excepção, quando o prato não-dieta era feijoada. A troca era certa e tanto quanto me lembro não era má e sempre iam umas garfadas com mais prazer.

Havia em frente ao Hospital, mais ou menos, não me lembro bem, um bairro com um restaurante lá no meio que servia bifes (um insulto aos ditos, mas enfim...) e frango de churrasco. Como nos eram proíbidas saídas nocturnas e a segurança tinha sido reforçada por causa do Peralta, o Quintino arranjou-nos umas divisas ou galões (?) de alferes e capitão que usávamos para sair disfarçados. Eu, o fadista e o operado passamos a realizar operações nocturnas ao tal restaurante para matar a fome e esquecer os padecimentos. Com direito a continencia com grande batimento de pés e arma em sentido do sentinela à porta do hospital.

Descobri que havia uma biblioteca no Hospital. Embora a minha figura continuasse com muito mau aspecto geral, conversava muito com a Bibliotecária, uma senhora ainda jovem esposa de um militar. Descobri a Gabriela, do Jorge Amado e a Selva de Ferreira de Castro. Os dois livros marcaram-me pelas particularidades, de um e outro, muito comuns à Guiné: clima, cultura, geografia, colonialismo. Não me cansei, nem canso, de publicitar estes dois livros. O (A) Gabriela que hoje possuo, deve ser o meu quarto volume, pois os outros sumiram depois de emprestados.
O primeiro que comprei foi em Catió após o meu regresso do Hospital, na Loja de um senhor sírio, cujo nome esqueci, (o querido camarada Condeço chegou a enviar-me fotos nossas em casa dele, mas perdi-as numa das lavagens do PC), e meu fornecedor habitual de livros, discos, gravadores, máquinas fotográficas, recordações. E por lá ficou.

Faria trinta dias de internamento em breve e o médico quis preparar a minha evacuação para a metrópole. Disse-lhe que não queria e me desse alta. No horizonte previa o regresso em Janeiro, no primeiro barco. O último do ano já chegara a Bissau e levaria os mais velhos. Portanto, ficavam como velhinhos os que tinham embarcado em 1 de Maio de 1968, nos quais me incluía. Em Janeiro teríamos 20 meses de comissão. Já há muito que andava com a medalha ao peito. A célebre Barreta, verde e vermelha.
Lembrava-me do meu pessoal de quem estava afastado há 3 meses. Como era o único sargento e responsável pelo pelotão (o Oliveira aos 16 meses foi fazer um curso de artilharia em troca comigo e só o voltei a ver próximo do dia do embarque em Abril) tinha a obrigação de tratar das burocracias. Sempre eram mais de 30 homens e tinha um mês para isso. Os meus palpites não bateram certo, mas isso são outras estórias.
O médico, contrariado, notei, deu-me alta e muitos conselhos. Não me chamou burro mas subentendi. Enfim, médicos...

Aguardei no hospital que houvesse transporte aéreo para Catió, o que aconteceu no dia 4 de Dezembro, dia de Santa Bárbara e da Artilharia. A minha rapaziada recebeu-me com carinho e à espera de matar a sede, que a água da bolanha andava muito salgada.
Mas vamos à vida que o próximo barco é o nosso.

Fui-me informar como andavam as coisas por Catió e cheguei à GMC, Berliet ou lá que era, a viatura que tinha ido meio pelo ar numa mina. Estava à mercê da ferrugem.
Um pequeno convívio com rapaziada da CCS do BART.2865. Furriéis Mecânico, Transmissões, Armamento. Gente muito boa.

Um novo posto de transmissões que o Eduardo Monteiro (Dadinho para os amigos de infância) mandou construir. Naquele quartel já não se capinava.

E esta é (foi) mais uma das minhas estórias dos velhos tempos.

13 comentários:

zé manel cancela disse...

Olá Jorge,foi pena nao nos ter-mos conhecido nessa altura,tivemos que esperar quase quarenta anos,para reviver-mos essa passagem pelo hospital.Recordo-me perfeitamente do tratamento do capitao Cubano,como do duo ouro negro num domingo á tarde..
Um abraçao e até á proxima........

Anónimo disse...

Jorge

Esta foi a historia mais fantastica que escreveste, desde que nos conhecemos...para mim claro

Adorei ..adorei e me fez sorrir, de coisas algumas bem tristes, mas o teu toque as ameniza

Um abraço

MMMD

Anónimo disse...

Você precisa escrever um livro com suas histórias...
Abraços.
Malu.
http://malu-azevedo.blogspot.com/

Anónimo disse...

Muito boa a história.


A respeito do livro - vi-o numa das fotos - Gabriela, cravo e canela, de Jorge amado, recentemente, a TV Globo passou a 2ª versão da novela, não tendo a originalidade da primeira. Talvez Sônia Braga seja uma atriz que marca muito, talvez seja porque a atriz de agora não fosse tão jovem, o certo é que não emplacou como da primeira vez.


Bem, um cheiro e meu carinho.


Teresa.

Anónimo disse...

oi Jorge
Gostei, vc era um gatinho quando novo.
Bjs
Regina

Anónimo disse...

Oi querido adorei lê-la,bjssss
Dirce

Anónimo disse...

Olá Jorge sempre me encanta as tuas narrativas...esta de tua vida!!!interessante....quanto as sandalias são as famosas Havaianas...onde conhecidas e estão nos pés toda a população brasileira e até na Europa princ. dizem que a França...te mando abraços cariñoso de tua amiga de rio de janeiro e espero um díaquando volte a Porto...conhecer-te!!!!!bjuss
Eny

Anónimo disse...

Tuas histórias sempre encantam. Como é bom relembrar o passado.
De nada serve, mas os chinelos de borracha se chamavam e se chamam ainda hoje "havaianas", não sei por que. Sei que para nós brasileiros são chinelos comuns que custam 10 reais ou 5 dólares. Na Europa e nos E.Unidos custam 40 dólares e usam como se fosse uma coisa muito "chique" .
Bom domingo amigo, um abração
Vera

Anónimo disse...

Oi Jorge! Lindo Moço!!!
A tua estória de vida na época da triste guerra (acho que são feitas só para vender armas e matar os filhos das Mães e nenhuma delas gostaria de receber uma Bandeira de presente), mas como não podemos mudar essas coisas é o jeito vencê-las de qualquer modo. Achei as fotos assim meia tristes pois são momento difíceis que passaram, mas dei muitas risadas das tuas astúcias, pois mesmo nas horas sofridas ainda tirava um lero das coisas.
Um beijo da Nalva BaHiana

Anónimo disse...

Boas grande amigo.

nesta altura tambem estive no mesmo hospital em consulta externa vim de Guilege mas cheguei atrasado em relaçao ao capitao cubano, o helli que me trasia de Guilege fez um desvio ate Aldeia Formosa pois a operaçao estava a desenrolar-se naquela zona e o meu helli rebentou um tubo de oleo no ar e conseguimos chegar a terra. Depois fiquei la a aguardar novo transporte para Bissau foi quando apanharam o cubano nem sabia ao certo aonde o Quintino estava,mas sabia que tinha vindo para Bissau. um abraço e um" queijo da serra" Gomes

António Manuel - Tómanel disse...

Passei por aqui, por este teu cantinho, e vejo novidades! lindas postagens no teu blog.
Parabéns pela constante actualização.
Um Santo e feliz Natal.
Um abraço cá do Algarve.
http://umraiodeluzefezseluz.blogspot.com

Anónimo disse...

Caro Portojo

A sua experiencia de vida é muito rica e bastante interessante.
A sandalia brasileira é HAVAIANA, muito popular por aqui. Não tem em Portugal? Se quizer escolha a cor, mande o endereço e o número que você calça que eu enviarei um par para você.
Os americanos levam dúzias delas, pois as acham muito confortáveis.
Abraços

M.Heloisa

Anónimo disse...

OBRIGADA PELA PARTILHA!
gOSTEI MUITO
UMA VIDA!!!!!!!!!!!!!!!!!
SAUDE, OBRIGADA E...ATÉ SEMPRE
Olga